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A alta dos grãos e as urnas – Brasil S/A

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Desde a semana passada, um assunto inquietante passou a dominar os debates dentro do governo e entre os analistas: a disparada dos preços dos GRÃOS (soja, trigo e milho, principalmente) no mercado internacional. Contas para cá, contas para lá, o objetivo é saber o real impacto da valorização das commodities agrícolas na economia brasileira. Mais precisamente sobre a inflação e o nível de atividade.

Como o Brasil é um do maiores produtores de GRÃOS de mundo, não há dúvidas de que os preços em alta, sustentados pela gravíssima seca no Meio-Oeste dos Estados Unidos, vão ampliar a renda no campo e dar um importante incremento ao consumo nas cidades próximas às regiões de plantio. Consumo, não importa de onde vem, é sempre um combustível importante para o Produto Interno Bruto (PIB).

Por outro lado, com receitas maiores das exportações, a oferta de dólares tenderá a derrubar as cotações da divisa no país, fato que causa apreensão no Ministério da Fazenda, empenhado até o pescoço em manter a moeda norte-americana acima de R$ 2 e, assim, dar fôlego à combalida indústria.

Se o consumo aumentará nas regiões agrícolas, o inverso deverá ser observado nos centros urbanos, pois os alimentos ficarão mais caros, reduzindo o poder de compra das famílias, muitas delas superendividadas. Mais: a inflação, que andou comportada nos últimos meses, deve apontar para cima, em meio ao processo de corte da taxa básica de juros (Selic) pelo Banco Central. Essa alta será mais forte nos índices gerais de preços (IGPs), que corrigem tarifas públicas e contratos de aluguel. As projeções para esses indicadores já apontam para 7% no ano.

É, principalmente, esse ponto o alvo central do debate no mercado e o motivo de apreensão no governo. Todos querem saber como será o comportamento do BC nesse quadro. A Selic está em 8% ao ano. Desde agosto do ano passado, já caiu 4,5 pontos percentuais. O recuo dos juros se deu junto com o enfraquecimento da inflação e a forte desaceleração da economia. Mas, com o custo de vida voltando a incomodar, o Comitê de Política Monetária (Copom) permanecerá derrubando a taxa básica?

A resposta é: com certeza, sim. O BC já identificou que os problemas enfrentados nos EUA são passageiros, provocando o que os economistas denominam choque de oferta. Está claro, entre os técnicos da autoridade monetária, que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) será maior do que o previsto inicialmente em julho e em agosto, mas nada que indique descontrole. Na avaliação do BC, com o ritmo fraco da atividade, não haverá muito espaço para repasses aos consumidores, sob o risco de as empresas perderem vendas.

Não é só. Dentro do governo, acredita-se que a crise europeia ainda se agravará muito nos próximos meses e a economia norte-americana fraquejará, ajudando a conter qualquer surto inflacionário lá fora e aqui. Por isso, estão mantidas as apostas no entorno da presidente Dilma Rousseff de que a equipe de Alexandre Tombini no BC levará a Selic para pelo menos 7% ao ano, deixando os juros reais entre 2% e 2,5%, como sonha o Palácio do Planalto.

Fantasma da estagflação

Mas que todos se preparem para dias de tensão. À medida que forem saindo indicadores de inflação e do nível de atividade, ganhará força a visão de que o Brasil mergulhou em um indesejável quadro de estagflação. Se o som desse termo econômico soa mal, pior é o que ele representa na vida real: a combinação de preços em alta com produção e consumo fracos. Felizmente, não se espera a propagação desse tormento por muito tempo. Com a fragilidade da economia, a inflação, em algum momento, vai ceder. E os efeitos dos cortes dos juros, que demoram até um ano para dar as caras, estarão se multiplicando.

Será um período difícil para a presidente Dilma, sobretudo diante da proximidade das eleições municipais, período em que os candidatos a prefeitos dos partidos aliados contavam com uma revigorada da atividade. Haverá questionamentos em relação ao modelo econômico adotado pelo governo – se é que ele existe, tamanha a quantidade de medidas pontuais anunciadas, sem sucesso, nos últimos meses. E, especialmente, à capacidade do país de reagir às intempéries internacionais. No horário eleitoral, tais cobranças tenderão a reverberar. E a incomodar.

Defensora dos oprimidos

Por sorte, Dilma assumiu as vestes de defensora dos oprimidos consumidores. As ruas andam inflamadas pela decisão da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) de dar um basta nos abusos cometidos pelas empresas de telefonia celular. A partir de hoje, TIM, Claro e Oi estarão proibidas de venderem linhas nos estados onde lideram as reclamações. A medida se soma à queda (ainda insuficiente) dos juros bancários e à interrupção na comercialização de 268 planos de saúde de 37 operadoras de péssima reputação.

Sempre desprotegidos, os consumidores costumam demonstrar gestos de gratidão aos que assumem sua defesa. Nem mesmo em um momento de grave crise econômica, como o atual, eles relegam ao esquecimento punições aos maus prestadores de serviços que, ao longo de anos, lhes impingiram tantos aborrecimentos, mesmo cobrando caro pelo que entregam.

As urnas estão sendo preparadas. Se as agências reguladoras não cederam às pressões das empresas e se Dilma der mais uma tacada, como enquadrar as companhias aéreas, os candidatos governistas terão uma bandeira e tanto nas mãos. E as inquietações sobre a alta dos GRÃOS e se o BC continuará cortando – e em quanto – os juros se restringirão ao mercado financeiro. Que, ressalte-se, não tem força suficiente para eleger ninguém, mesmo com todo o barulho que faz.

VICENTE NUNES É EDITOR DE ECONOMIA

Fonte: CORREIO BRAZILIENSE – DF Editoria: ECONOMIA Coluna: Brasil S/A Jornalista(s): Brasil S/A